domingo, 5 de maio de 2013

Laranjeiras II - Praça São Salvador

foto de Raul Félix
Casarão recuperado em 2011, localizado numa bucólica praça no bairro das Laranjeiras, que tem um climão de cidade do interior, com direito até a coreto onde grupos de samba e chorinho se apresentam.
foto de Raul Félix
O padrão que vemos neste casarão é bastante comum aqui no Rio de Janeiro, e já o vimos outras vezes neste blog.
foto de Raul Félix
No detalhe acima podemos observar uma telha "invasora", de um outro padrão também bastante comum aqui no Rio de Janeiro, e que deve ter sido usada para repor um telhão perdido.

localização da Praça São Salvador

foto de Raul Lisboa

6 comentários:

  1. Caros Fábio e amigos azulejófilos de todo o planeta,


    Aqui vão alguns comentários sobre o casarão azul da Praça São Salvador.

    A data que figura na cartela é 1882, época em que tanto os telhões de faiança quanto os lambrequins tinham largo uso. Entretanto, a presença destes dois elementos no mesmo imóvel é completamente atípica. Isto se deve ao fato de que estes são detalhes ornamentais que caracterizam dois tipos diferentes de planos de telhado cujas características já expliquei em comentário ao post sobre a Chácara São João, em Quissamã ( http://azulejosantigosrj.blogspot.com.br/2013/02/quissama-iii-chacara-sao-joao.html#comment-form ). No modelo mais tradicional, que projetava os beirais à frente da fachada, a vitrificação da telha dava-lhe um aspecto agradável, evitando também que acumulasse lodo muito rapidamente. No modelo mais novo, de duas águas com volumetria de tipo chalé, geralmente com telhas marselha, as águas da chuva eram dirigidas para os lambrequins, que serviam como pingadeiras. Acho pouco provável que na época alguém quisesse optar por uma tecnologia híbrida (onde inclusive teria que articular dois tipos diferentes de telhas), pois se podia pagar pelo tipo "moderno", provavelmente construiria todo o imóvel segundo este padrão, que é, aliás o mesmo dos demais elementos da fachada. Portanto, sou de opinião que, embora não seja completamente impossível que seja esta atual a configuração original desta fachada, é muito mais provável que este casarão fosse originalmente um chalé, seja do modelo romântico, com tímpano decorado com elementos de estuque e respiradouro, ou do modelo apalacetado, com frontão, platibanda e pináculos (compoteiras). Neste caso, os telhões teriam sido acrescidos posteriormente, sendo necessário para acomodá-los que o frontão fosse demolido e a frente do telhado abatida. Isto poderia ter acontecido seja na década de 20, quando o estilo neocolonial então em voga passou a valorizar os telhões, ou, mais provavelmente, nos anos 70, quando houve um certo modismo de materiais de demolição, telhões inclusive.



    Abraços,



    Raul.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá Raul,
      Eu vou mais pela sua segunda teoria, pois a interrupção dos telhões e o início do lambrequim me parece por demais abrupta, não me parece algo que seria feito assim em 1882, quando se era muito mais cuidadoso com acabamentos e ifdelidade a programas arquitetônicos.
      Como ao lado deste casarão há um claramente neocolonial, quem sabe o proprietário deste em questão no post não se sentiu pressionado a "atualizar" seu imóvel. E isto pode ter sido na década de 1920, ou além, pois embora a década de 1920 seja a do neocolonial, ainda houve ondas nas décadas seguintes, chegando mesmo na década de 1940, quando, por exemplo, Raymundo Castro Maya "neocolonizou" a Floresta da Tijuca (1943/46), ou Lucio Costa que nesta mesma década remodelou o Largo do Boticário, que já era neocolonial, mas que o levou a um passo a frente, incorporando azulejos e outros elementos. Na década de 1940 houve muito material de demolição, azulejos e telhões, disponíveis da imensa quantidade de demolições para a abertura da av. Pres. Vargas.
      abraços

      Excluir
  2. É verdade, Fábio, o gosto neocolonial foi seguido até a início dos anos 50, eu deveria ter escrito a partir da década de 20. Mas o que eu acho importante destacar para quem vê este casarão e quer entender sua arquitetura é que ai temos, com toda a probabilidade, um híbrido. Até diria que é bem feito, bem resolvido, mas não pode ser visto como representante de um período estilístico, e nem mesmo como um tipo de transição, embora composto de elementos autênticos.
    []s,

    Raul.

    ResponderExcluir
  3. Olá Fábio,
    Realmente este belo edifício surpreende por apresentar dois tipos de fachada, a frontal e a lateral, que se tivessem sido fotografadas em separado, ninguém diria que pertencem à mesma casa - não só pelos ornatos do telhado, o lambrequim branco e o beiral de telhões, com o friso em estuque que o acompanha; também as janelas são bem diferentes num lado e no outro da moradia.
    Bem, mas como calcula, o que aqui me trouxe foram os telhões. É que fez-me lembrar um dos últimos beirais que fotografei no Porto e que ainda não mostrei no blogue. Aqui há dois tipos de telhão, no do Porto consegui detetar quatro, alguns muito semelhantes a estes.
    Quanto ao lambrequim branco, muito bonito, imagino que seja de madeira, o que aqui não era habitual. Os que se usaram muito por cá eram formados por séries de telhas de barro para beiral que terminavam num bico rendilhado e assim davam um aspeto romântico aos chalés.
    Fotografei essas telhas não há muito tempo e pode vê-las aqui, na 6ªfoto:

    http://www.artelivrosevelharias.blogspot.pt/2013/04/a-fabrica-das-devezas-na-pampilhosa.html.

    Agora vou ver se arranjo tempo para publicar o tal beiral do Porto ainda hoje.
    Beijos

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá Maria Andrade,
      Sim, os lambrequins aqui são de madeira, e creio que esta seja a razão pela qual muitos foram removidos dos chalés, pois por falta de manutenção apodreceram.
      Estes de cerâmica eu já vi na época em seu site, e os acho LINDOS! E certamente mais duráveis.
      Aguardo os teus telhões! Nunca me canso deles.
      b'jinhos

      Excluir
  4. Houve uma demolição na Rua Visconde de Santa Isabel, há mais ou menos 25 anos em que telhas de beiral, do tipo mais refinado, com relevos na borda foram recolocados em uma casa dos anos 30. Salvei uma telha de bico, ou canto, porem estavam cortadas, com mais ou menos 40 cm. Resta a ver se estas estão com os 90 cm originais, ou foram adaptadas. Não consigo ver no lado esquerdo terminação que tem o lado direito. Faltou telha?

    ResponderExcluir