sábado, 14 de dezembro de 2013

Centro XLVI - rua da Quitanda

Hoje voltamos à rua da Quitanda, para ver este belo prédio azulejado e com telhões de beiral de faiança vidrada, que estava em plena reforma quando lá estive para fotografá-lo.



Como podemos ver abaixo, o belo prédio ficou pronto em 1872.


Um pormenor do último piso, onde podemos apreciar a bela cmbinação de cantaria, azulejos, telhões pintados e gradil de ferro, típica do Rio de Janeiro nesta época, e que tão bem evoca a arquitetura do norte de Portugal, em particular Porto e Braga.



O azulejo de padrão deste prédio pode ser encontrado em diversos catálogos holandeses, geralmente com o nome "Dubbel kruisblad" (cruz com lâmina dupla).


detalhe do padrão no catálogo da fábrica Makkum; data desconhecida.

página de um catálogo da fábrica Ravesteyn, de Utrecht, de 1890.

Os catálogos acima eu preciso sempre agradecer ao meu caro colaborador holandês Peter SprangersEmbora Peter me tenha informado que não se sabe se houve exportação de azulejos fabricados na Makkum para o Brasil (diferente das fábricas Ravesteyn Schillemans, das quais ele possui documentação comprovando exportações para cá), é sempre interessante registrar aqui no blog as várias fábricas conhecidas que produziram um determinado padrão encontrado em fachadas no Rio de Janeiro.

Abaixo, o padrão em catálogos que eu obtive online:

foto de azulejo de um catálogo online de azulejos antigos holandeses.
Em outro catálogo, este padrão se chama "Klokjes",  e teria sido fabricado entre 1860 - 1900:




prancha com o modelo de decoração "Dubbel kruisblad", do livro de modelos de pintura
de azulejos, doado ao arquivo municipal em 1876 de Roterdam por Frederick James Kleijn (1819-1881),
 proprietário de uma fábrica de azulejos naquela cidade.
A cercadura nós já vimos antes, em diversas postagens.


Eu já a encontrei em vários catálogos online, e nas cópias de catálogos enviadas pelos meus colaboradores, O nome deste padrão seria "Rozelintlijst" (fita de rosas, listra de rosas, rosas e listras).


versão em manganês da cercadura usada no imóvel em questão,
em uma página de um catálogo da fábrica Ravesteyn, de Utrecht, de 1890.



Agora vamos aos telhões. Como se pode ver no detalhe abaixo, os telhões estão em um estado de conservação tão notável, que só posso pensar que foram todos substituidos por réplicas novas. Reparem que como no caso de uma postagem recente, de um imóvel no Catumbí, mesmo o desenho da decoração parece excessivamente "certinho", preciso demais.


Não quero dizer com isso que os telhões estejam ruins, pelo contrário, estão muito bonitos neste caso, mas sempre penso que, se realmente foram TODOS substituídos, onde estarão os originais? No lixo? Em um antiquário? O que me assusta é que já registrei 3 imóveis que passaram recentemente por "reforma", e que apresentavam algumas faltas de azulejos na fachada, em que simplesmente arrancaram TODOS os azulejos, que foram substituídos por versões industriais novinhas, e em um certo caso, uma péssima versão, muito mal elaborada e impressa. E nos 3 casos se usou azulejos brancos comuns, do tipo usado em banheiros e cozinhas, como base para a impressão, o que dá um aspecto horrível para o imóvel depois da reforma.

Não entendo a razão, além de (1) estupidez, (2) preguiça ou a pior talvez, (3) ganância, para se realizar este tipo de reforma. Num dos prédios eu contei: faltava, apenas SEIS azulejos. E por conta disso, se arrancaram todos os demais. E tão horrível quanto esta atrocidade, de remover todos os azulejos, é o uso de azulejos comuns atuais, ao invés de se providenciar réplicas que repetem as técnicas de fabricação e pintura originais.

4 comentários:

  1. Coloca aqui questões muito pertinentes, amigo Fábio, que infelizmente só preocupam meia dúzia de amantes destas coisas, como nós.
    Sempre que há remodelaçoes, eu defendo sempre o mais possível a manutenção dos elementos da fachada original, só que a maior parte dos construtores prefere colocar tudo novo, mesmo que seja cópia do antigo e por vezes más cópias que resultam em aberrações...
    Os telhões são sempre bonitos, mas assim, demasiado novos, destoam um pouco do resto da fachada, com a sua arquitetura antiga e a cor escura da pedra...
    Já está com saudades do Rio? ; )
    Beijos

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    1. Sim Maria Andrade, e segundo as normas de restauração, deveria ser assim: preservar ao máximo o que for possível do original, aproveitar cada caquinho que possa ser reposto em seu lugar, e muitas vezes, deixar vago o que está faltando, ou quando houver necessidade estética ou qq coisa importante, repor mas de forma visivel o que é novo.
      Mas como estes prédios são particulares, e a Prefeitura e a Secretaria de Patrimônio não está dando mesmo A MÍNIMA, só querem saber das obras novas para as Olimpíadas, vão fazendo isso. E eu sempre suspeito que as peças antigas removidas vão logo aparecer à venda em algum antiquário.
      Saudades do Rio tenho sempre, mas ainda nenhuma vontade de voltar. O blog, depois da minha comunicação no encontro do PISAL teve um afluxo muito grande, e eu achei ruim tanto tempo sem alguma atualização. E também foi uma forma prazeirosa de ocupar um par de horas nos momentos de tédio aqui na VA.
      b'jinhos!

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  2. Oi, Fábio
    Hoje, por acaso, verificando um endereço do Google Maps, ocorreu-me de verificar o estado deste imóvel quando passou o carro do Google e, para minha surpresa, no fotograma datado de Agosto de 2011, não há nenhuma evidência de que esta atual reforma tivesse iniciado mas os telhões estavam em excelente estado, como podes ver em : http://goo.gl/maps/l15iX . Disto se pode depreender que, ou eles realmente são originais e espetacularmente conservados, ou foram substituídos em alguma reforma anterior.
    Abraços,
    Raul.

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    1. Olá Raul,
      Interessante isso.Os telhões estão mesmo todos lá, Toda a fachada não parece apresentar muita diferença ao que fotografei. Não sei em que pé está a reforma neste momento, e sinceramente tenho até medo de voltar, tantos os casos em que no final arrancaram todos os azulejos e os substituiram por cópias vagabundas, mas no momento da foto a reforma parecia mesmo apenas interna.
      Aproveitei para dar uma olhada no imóvel do n° 51, e aí entendi o que parecia a imensa sujeira no lado direito do prédio quando eu o fotografei. Ele foi incendiado! Então deve ter sido isso que "removeu" o n° 53 e n° 55, e aquele "quiosque" ao lado do atual estacionamento deve ser o pedaço que sobrou do n° 57.
      Parece que o "muurbloem" atrai incêndio...
      abraços!

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