quarta-feira, 24 de abril de 2013

Centro XXXVII - Igreja de Nossa Senhora da Candelária

gravura de 1856, de Bertichem. Reparem que a igreja ainda não tem a sua cúpula principal.

A Igreja de Nossa Senhora da Candelária é um dos principais monumentos religiosos da cidade do Rio de Janeiro, tradicional palco de casamentos da sociedade carioca.
Segundo conta a história - semilendária - sobre a origem da igreja, nos princípios do século XVII, uma tempestade quase teria feito naufragar um navio no qual viajavam os espanhóis Antônio Martins Palma e Leonor Gonçalves. O casal teria feito a promessa de edificar uma ermida dedicada a Nossa Senhora da Candelária se escapassem com vida. A nau, finalmente, teria aportado no Rio de Janeiro e o casal teria mandado construir uma pequena ermida no local da atual Igreja da Candelária em 1609.

A igrejinha paroquial da Candelária foi reformada em 1710, mas, na segunda metade do século XVIII, necessitava de ampliação. O sargento-mor Francisco João Roscio, engenheiro militar português, desenhou os planos para uma nova igreja. As obras começaram em 1775, utilizando-se de pedra extraída da Pedreira da Candelária, no Morro da Nova Sintra, no bairro do Catete. A inauguração, com a igreja ainda inacabada, ocorreu em 1811, em presença do príncipe-regente e futuro rei de Portugal, dom João VI. A igreja tinha, nesse momento, uma só nave. Os altares do interior da igreja haviam sido esculpidos por Mestre Valentim, o grande artista do estilo rococó do Rio de Janeiro, mas seriam substituídos nas reformas posteriores.

A fachada e o projeto geral de planta em cruz latina com cúpula sobre o transepto lembram muito certas obras do barroco português, como, por exemplo, a igreja do Convento de Mafra (1717-1730), perto de Lisboa e a Basílica da Estrela (1779-1790), na capital portuguesa. A fachada é particularmente bela entre as igrejas coloniais brasileiras. Como ocorre também com a maioria das igrejas coloniais do Rio de Janeiro, a fachada da Igreja da Candelária está voltada para a Baía de Guanabara, uma vez que essa era a via principal de entrada na cidade.

Algum tempo após a inauguração da igreja, o projeto foi ampliado para três naves. A nave anteriormente construída foi substituída, mas foi mantida a fachada original do projeto de Roscio. Por volta de 1856 terminou o abobadamento das naves e capelas, faltando a cúpula do transepto, que representou um grande problema de engenharia à época.

Após a intervenção de vários arquitetos, incluídos Justino de Alcântara, Francisco Joaquim Béthencourt da Silva, Daniel Pedro Ferro Cardoso e o alemão Carl Friedrich Gustav Waehneldt, a cúpula foi finalmente concluída em 1877.

As diversas partes da cúpula, em pedra de lioz portuguesa, foram feitas em Lisboa, assim como as oito estátuas que a enfeitam, esculpidas pelo português José Cesário de Salles. Quando terminada, a cúpula da Candelária era a mais alta construção da cidade.

A partir de 1878, começou a decoração do interior da igreja, seguindo um modelo neorrenascentista italiano com revestimento de mármores italianos policromados nas paredes e colunas, afastando-se assim dos modelos vigentes na época colonial. O revestimento interior foi desenhado por Antônio de Paula Freitas e Heitor de Cordoville.

As magníficas pinturas murais no interior da Igreja foram encarregadas ao brasileiro João Zeferino da Costa, pintor e professor da Academia Imperial de Belas Artes, sendo essas consideradas suas obras-primas. Zeferino contou com a ajuda de um estaleiro de bons pintores como Henrique Bernardelli, Oscar Pereira da Silva e o italiano Giambattista Castagneto, entre outros. As pinturas se distribuem pelo teto das naves, cúpula e capela-mor e foram realizadas entre 1880 e o final do século XIX.

No teto da nave, há seis painéis que contam a história inicial da igreja da Candelária, desde a viagem dos fundadores até a primeira sagração, enquanto que, na cúpula, as pinturas representam a Virgem, as virtudes e figuras do Velho Testamento (Jessé, Isaías, David e Salomão).
Outros detalhes importantes do interior são o altar-mor do brasileiro Archimedes Memoria, os vitrais alemães e os enormes púlpitos em estilo art nouveau do escultor português Rodolfo Pinto do Couto (1931). Em 1901, foram instaladas as belas portas de bronze na entrada da igreja, obra do português Teixeira Lopes.

[fonte>>]

c. 1910

E vamos aos azulejos. De todas as cúpulas azulejadas de igrejas já apresentadas aqui no blog, e mesmo as já fotografadas e ainda por postar, definitivamente as cúpulas da igreja da Candelária são as que estão em pior estado. Esta igreja é imensa, e muito alta, e do chão a gente vê que a cúpula tem azulejos azuis e brancos, formando alguns desenhos em mosaico, mas não se dá conta do estado dos azulejos, nem mesmo que na verdade eles sequer são brancos, mas sim do padrão "Estrela e Bicha" ("Slangster" em holandês; "Estrela e Serpente") e Marmorizado! Há também, entretanto, áreas com azulejos apenas brancos.


Eu fiquei muito espantando ao ver as fotos quando as abri no computador, pois esta é uma das mais importantes e mais ricas igrejas da cidade, e não entendo como os azulejos podem estar tão estragados, quando nas demais, e até nas mais modestas, os azulejos, como vimos nas postagens anteriores, estão em muito bom estado.



Quero acreditar que boa parte do que vemos nas fotos é sujeira acumulada por mais de cem anos. Mas a maior parte me parece ser realmente degradação dos azulejos. Vejam nos detalhes. Dá pra ver a argila por baixo do vidrado descascado. O desenho dos azulejos "Estrela e Bicha" está muito apagado.


O marmorizado no detalhe acima eu tenho quase certeza que são holandeses, pois são idênticos a tantos outros na cidade, e ao desenho que encontramos em catálogos daquele país. O mesmo eu diria do "Estrela e Bicha". O tamanho da estrela em relação ao azulejo, as curvas sinuosas muito precisas e iguais. Tudo isso me faz pensar também em azulejos holandeses.



No detalhe da gravura de 1856, me parece que os desenhos formados com os azulejos já estão lá. 

3 comentários:

  1. O exterior deste belíssimo monumento poderia estar no Porto, por exemplo, tal o ar português que respira. A composição volumétrica exterior é afim da nossa Basílica da Estrela, é verdade, mas o jogo de pedra, azulejo e paramentos brancos remete para o barroco nortenho de Portugal.
    Já a basílica da Estrela, de um barroco tardio, já demonstrando elementos neoclássicos, é toda revestida de uma pedra branca calcária.
    O interior deste vosso templo está aparentado com o interior da nossa, mais modesta, igreja de S. Domingos em Lisboa, a igreja dos casamentos régios portugueses, revestida de belíssimos mármores e pinturas, e que, após ter sido praticamente destruída no grande terramoto de 1755, acabou por arder em 1959, e o que resta, hoje, é algo profundamente alterado e onde as marcas das calamidades por que passou são bem evidentes.
    Quanto aos azulejos, fico admirado por serem do motivo de bicha e estrela, pois mal se percebe a partir das fotografias.
    Estão muito alterados!
    E a sempre eterna grafitagem desfeante e horrível ... sem comentários (tinha feito um, mas era tão feio que apaguei)!
    Obrigado por mais este apontamento dessa cidade de fantásticos edifícios luso brasileiros
    Manel

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    1. Olá Manel, obrigado pela visita e comentário.
      Os azulejos "Bicha e Estrela" de longe, mesmo os em melhor estado, parecem todos brancos, de tão longe que estão. as torres são realmente altas! Em comparação, no caso da igreja de S. Francisco Xavier, uma das primeiras que publiquei, da rua você percebe claramente que os azulejos são desenhados.
      O mais triste é que a igreja da Candelária foi reformada por volta de 2007, mas pelo visto, o exterior eles não deram muita atenção.
      O interior desta igreja é de tirar o fôlego mesmo do carioca mais acostumado com a suntuosidade de muitas de nossas igrejas. Eu me sinto transportado para a Itália lá dentro.
      abraços!

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  2. Fábio, obrigado pelo comentário simpático que acaba de deixar no meu blog. Está ótima essa sua dissecação da nossa linda Candelária, a construção mais alta e imponente da cidade antes de surgir o edifício A Noite.

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