sábado, 1 de fevereiro de 2014

Azulejos Antigos no Rio de Janeiro – da saudade à descoberta de um patrimônio azulejar original

por Fábio Carvalho
dez 2013/jan 2014

Comunicação (revisada e ampliada) apresentada no Segundo Encontro O AZULEJO HOJE, organizado pelo PISAL (Programa de Investigação e Salvaguarda do Azulejo de Lisboa em espaço público), da Câmara Municipal de Lisboa, no dia 6/12/2013, no Teatro Aberto, Lisboa, Portugal.


Meu interesse por azulejaria antiga começou com as aulas que tive sobre o tema em 2008, com a professora Dora Monteiro de Alcântara. Foi um curso compacto porém intenso, dentro do programa do Mestrado de Arqueologia do Museu Nacional (UFRJ). Naqueles poucos dias de aulas teóricas e práticas, e excursões por museus e igrejas, foi em mim inoculado o vírus da “gripe” do azulejo, que de imediato me abriu os olhos para algo que estava ali, pelas ruas de minha cidade natal, e eu sequer notava! Mas esta “gripe” ainda haveria de me levar por caminhos inesperados.
Turma de 2008 do Mestrado de Arqueologia do Museu Nacional/UFRJ.

Em 2011 fui convidado a participar do projeto "Bordallianos do Brasil", o que me levou até Caldas da Rainha, em Portugal, para conhecer e reinterpretar a obra cerâmica do grande artista português Bordallo Pinheiro. Aproveitei para também passar 10 dias entre Lisboa e Porto, e após um mês em Portugal, me tornei um apaixonado por tudo o que diz respeito à gente e às terras lusas, e meu interesse pela azulejaria só fez crescer.
"Floreiro Archeiro", de Fábio Carvalho

De volta ao Brasil, aquela bela palavra que só há em nosso idioma - saudade – me fez buscar um meio de, mesmo que apenas afetivamente, me manter em conexão com Portugal. E assim comecei a "caçar" os azulejos antigos no Rio de Janeiro. E desta caça, vieram as fotos, a pesquisa, e finalmente um blog.
Quando criei o blog “Azulejos Antigos no Rio de Janeiro”, não tinha a pretensão de criar uma fonte de referência, ou sequer um ponto de encontro para os aficionados pelo assunto (o que acabou por acontecer). Era algo que fazia para mim mesmo, como um caderno de anotações público. E para minha surpresa, logo começou um rico diálogo com outros apaixonados e também experts de vários cantos do mundo, desde o Brasil até Portugal, passando também pela Holanda e Bélgica, que tanto me ensinam e colaboram com imagens e informações para o blog.
Azulejos holandeses (esquerda) e seus similares portugueses (direita).

Neste curto espaço de tempo em que me dedico aos azulejos no casario antigo do Rio de Janeiro, talvez o dado mais interessante que pude constatar, naturalmente de forma ainda preliminar, é que apesar de popularmente acreditarmos que todos, ou quase todos, os azulejos antigos no Rio de Janeiro são portugueses (o que é compreensível, dada nossa origem como colônia portuguesa), não está correto. Na verdade, grande parte dos azulejos antigos de fachada no Rio de Janeiro até agora encontrados e registrados são, quantitativamente falando, em primeiro lugar holandeses, em segundo franceses. Há ainda azulejos belgas, ingleses e (talvez) alemães. Os azulejos portugueses encontram-se em quantidade surpreendentemente pequena. Minha pesquisa engloba apenas os azulejos que ainda encontram-se em fachadas, mas mesmo em algumas escavações arqueológicas de sítios do século XIX que pude ter acesso ao material coletado, a maior parte dos azulejos é também proveniente da Holanda.
Das mais de 200 postagens do blog, 72 apresentam azulejos holandeses, 20 azulejos franceses, 5 azulejos portugueses, 3 azulejos belgas e 3 azulejos ingleses. Há ainda uma grande quantidade de material não publicado, mas mesmo neste material, predominam os azulejos holandeses e franceses.
Exemplos de alguns dos poucos padrões de azulejos portugueses antigos no Rio de Janeiro.

No levantamento já realizado, podemos perceber alguns padrões decorativos em azulejos holandeses similares aos encontrados em Portugal, como o “Engelsnet” (Renda Inglesa, também conhecido na Holanda por “Braziliaan”, semelhante ao “Crochet” português), o “Hamburger Achtkant” (Octógono de Hamburgo, “Estrela de Hamburgo” no Brasil, padrão este que segundo o catálogo do Museu do Azulejo da Holanda teria sido criado em Harlinger, por volta de 1858, e depois copiado por outras fábricas holandesas entre 1860-1920) e o “Viersterren” (Quatro Estrelas, semelhante ao “Bicha da Praça” português). Este último, segundo A.J. Barros Veloso no livro “Azulejos de Fachada em Lisboa” (Ed. Câmara Municipal de Lisboa, 1988), seria um padrão de provável influência holandesa. Além disso, encontramos ainda nas fachadas do casario antigo do Rio de Janeiro azulejos de origem holandesa e francesa que compartilham um mesmo padrão decorativo.
Exemplo do uso de diversos padrões de azulejos em um único imóvel.

Outro dado interessante do uso de azulejos no Rio de Janeiro é a mistura dos padrões, bem como a combinação de azulejos de mais de uma nacionalidade, em um mesmo imóvel. Não é incomum ver num imóvel um padrão sendo usado por toda a fachada, mas com um friso ou faixa formada por outro padrão. Mas há casos onde usou-se um padrão para as áreas principais da fachada, outro padrão para o friso abaixo da platibanda, um terceiro padrão para áreas verticais destacadas da fachada, como se fossem colunas, ainda um quarto padrão para a platibanda... E muitas vezes, cada padrão é acompanhado por uma cercadura diferente do outro. 
Telhões de faiança pintada, em imóvel de 1874, junto com azulejos holandeses.

Outro fato notável é a quantidade de imóveis com telhões de faiança pintada ainda existentes no Rio de Janeiro. Já foram registrados 20 imóveis com beirais em telhão de faiança pintada na cidade. Encontram-se também outros elementos decorativos em faiança, como urnas, pinhas e estátuas. Aí sim, nos telhões e ornamentos de faiança, há a soberania portuguesa.
Mesmo que se confirme a tendência apresentada neste levantamento inicial, de que a maior parte dos azulejos antigos de fachada no Rio de Janeiro seriam holandeses e em segundo lugar franceses, ainda assim, a sua forma de uso e aplicação é tipicamente luso-brasileira, ou seja, fachadas frontais de imóveis revestidas de azulejos, quase sempre associados com trabalho em cantaria. E ainda por cima, os azulejos antigos no Rio de Janeiro encontram-se em fachadas com arquitetura similar àquela do norte de Portugal do mesmo período (meados do século XIX até os primeiros anos do século XX). Talvez daí também se pensar apressadamente que os azulejos antigos no Rio de Janeiro sejam portugueses.
Cúpulas azulejadas em igrejas antigas do Rio de Janeiro.

Por fim, acho interessante apontar para um outro uso característico para os azulejos no Rio de Janeiro (mas que também acontece em algumas outras cidades brasileiras): cúpulas de igreja azulejadas. Algumas vezes os azulejos são aplicados de forma homogênea, em outras, são cortados de forma a compor desenhos em mosaico. E o efeito do brilho e colorido dos azulejos em contraste com a cantaria é algo de grande beleza, emprestando às cúpulas uma sensação de leveza.


Fábio Carvalho
Artista plástico carioca com mais de 110 exposições no Brasil e pelo mundo. Fábio Carvalho é também desde 2004 pesquisador da história da indústria de louça brasileira, autor do livro "Porcelana Brasil - Guia de Marcas", e de vários artigos publicados em revistas sobre colecionismo e antiguidades. Desde 2011 Fábio Carvalho se dedica a localizar e fotografar imóveis antigos no Rio de Janeiro, que ainda apresentem revestimento azulejar original em suas fachadas. Com este material, criou o blog “Azulejos Antigos no Rio de Janeiro”, onde apresenta o resultado de sua pesquisa sobre a possível origem destes azulejos.

11 comentários:

  1. Caro Fábio

    Este teu blogue é já uma referência para os portugueses, que se interessam por azulejos do século XIX e certamente para os cariocas.

    Gostei imenso desta tua síntese, que foi extremamente clara e elucidativa.

    Um abraço forte apesar do mar que nos separa

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    1. Olá Luís, tudo bom?
      Obrigado por suas palavras carinhosas. Na verdade às vezes me parece que esse meu trabalho amador interessa mais aos de fora do que aos daqui. Basta ver que basicamente só tenho dois seguidores (e igualmente colaboradores) locais: O Raul e o Mateus.
      Mas mesmo que escrevesse apenas para mim mesmo, pois afinal foi assim que comecei, continuaria com o blog.
      abraços!

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  2. Fábio, sem dúvidas que seu Blog virou uma fonte de pesquisas, afinal foi assim que cheguei aqui. E posso dizer que foi por conta desse blog, de todo o seu trabalho de pesquisa que eu também tenho um pouco dessa "gripe" do azulejo, o conhecimento que tenho nessa área hoje eu devo à você. Parabéns pelo blog e vamos que vamos. Forte abraço.

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    1. Olá Mateus,
      Que bom que te passei a "febre". Mas na verdade a predisposição já estava em você, como também já estava em mim, antes da profa. Dora e Portugal me arrebanharem.
      Eu é que tenho sorte em tê-lo conhecido, e ter contado com sua colaboração.
      Allons-y! ;-)

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  3. Se em Portugal pouco ou nada se faz no sentido desta catalogação, é curioso que alguém o faça, ainda que de além mar!
    Um bem hajas pelo trabalho que tens vindo a fazer e que tem servido de referência a muita gente

    Manel

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    1. Olá Manel,
      Obrigado por suas palavras! Mas é importante dar visibilidade ao que vem acontecendo mesmo em Portugal. O PISAL, da Câmara Municipal de Lisboa, está fazendo um levantamento e catalogação extensivos dos azulejos de fachada em Lisboa. a Rede Temática em Estudos de Azulejaria também tem feito um trabalho neste sentido, gerando um cruzamento de várias bases de dados.
      Certamente deve haver outros, e seria ideal que isto acontecesse em todas as cidades com relevante patrimônio azulejar.
      abraços!

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  4. Olá Fábio,
    Eu tive o prazer de participar no Encontro Azulejo Hoje e ouvir a sua interessantissima comunicação. Obrigada pelas suas pesquisas, todo o seu trabalho e partilhar via blog. É uma referência! Eu diria que não é "gripe" mas Paixão (muito mais positivo) esta descoberta dos azulejos. Conheço o Pisal, conheci o seu blog, o blog Velharias do Luis, e vou conhecendo outros a usufruindo para aprender mais e mais. Porquê? Para dar a conhecer aos outros em passeios a pé em Lisboa - inspirada no Pisal. Já tenho dois percursos feitos. Visitei a Fábrica Sant'Anna: o bicha na praça tem lá o nome de bicha artistica. Fico eufórica cada bicha na praça que vou encontrando pelas ruas de Lisboa. Mas o croché é o meu preferido! Obrigada Fábio e conto consigo para cada vez mais e melhor! desafio lançado!
    Cumprimentos, Sandra Félix

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    1. Olá Sandra,
      Obrigado por suas palavras!!
      Que nome curioso que a Santana deu ao padrão Bicha da Praça.
      O crochet é mais paradigmático de Lisboa mesmo, está por TODO lado!!
      abraços

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  5. Ola Fabio!
    Belo trabalho! Parabéns!
    Também sou apaixonada pelos azulejos. Após uma temporada em Portugal aprendendo a técnica da pintura em azulejos, voltei e montei um ateliê em casa em Niteroi. Dou alguns workshops também. Se quiser conhecer o trabalho acesse a página https://m.facebook.com/AtelieCaJu/.
    Um abraço,
    Claudia.

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  6. Certeza de blog especialista no assunto, o patrimônio é um encantamento sem volta. Parabéns!

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