domingo, 28 de setembro de 2014

Azulejos: peças que se encaixam para contar a história do Rio

A arquiteta Dora Alcântara, de 83 anos, fala da importância dos azulejos, do período colonial ao modernismo

POR LUDMILLA DE LIMA / PAULA AUTRAN / SIMONE CANDIDA / RODRIGO BERTOLUCCI | 28/09/2014 6:00 / ATUALIZADO 28/09/2014 8:34
fonte: O Globo 

Dora Alcântara, 83 anos, com um painel em sua varanda
Gustavo Miranda / Agência O Globo
RIO - Para contar a história da azulejaria no Rio, é preciso montar um verdadeiro quebra-cabeça. Embora diferente de outras capitais, como São Luís e Recife, que dispõem de um conjunto uniforme de edifícios e igrejas azulejados, a cidade ainda guarda um rico patrimônio em azulejos que perpassa variadas épocas, desde o início da colonização. Há mais de 50 anos, a maior responsável por seguir essas pistas em todo o país é a arquiteta Dora Alcântara, de 83 anos, professora aposentada da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFRJ e conselheira do Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac).

Desde 1958, ela se debruça sobre cada detalhe dessas peças feitas de barro para reconstruir a história de uma arte muitas vezes relegada a segundo plano. Dora explica que, no Rio, a tradição da azulejaria começa com as ordenas religiosas, no século XVII. Desse período, são encontrados azulejos portugueses do tipo tapete no Mosteiro de São Bento e alguns vestígios no Convento de Santo Antônio. Mas no Rio só seriam valorizados mais tarde.

— Eles foram abundantes inicialmente nas regiões de maior importância econômica para Portugal, como o Nordeste, por causa da produção de cana. Aqui, isso só acontece quando o Rio se torna porto de exportação do ouro de Minas Gerais, no século XVIII — afirma Dora, dizendo que passam a ser importados azulejos da Europa para o Rio.

Gustavo Miranda / Agência O Globo

Uma das coleções mais admiradas na cidade é a do Outeiro da Glória, da primeira metade do século XVIII. Por dentro, a igrejinha é toda revestida de ladrilhos barrocos, de um cobalto vivo, de autoria do português Valentim de Almeida. Dora destaca também a Igreja de Nossa Senhora da Saúde, na Gamboa, em estilo rococó, da segunda metade do século XVIII. Lá, o azul ganha um tom mais claro, com policromia nas molduras.

A professora explica que a época e o estilo dos azulejos são definidos não pelos desenhos: — O que caracteriza o azulejo é a moldura, que permite identificar a época. Porque as cenas se repetem. Na moldura barroca, há elementos da arquitetura, com mísulas (tipo de ornato) e uma espécie de chave, chamada agrafe, que segura o conjunto de ornamentos. No rococó, a moldura é mais delicada e recortada, podendo haver uma mistura de cores.

PARTE DA CULTURA PORTUGUESA

O apogeu das importações veio no fim do século XIX, quando chegavam pelo Porto do Rio peças feitas em Portugal, Espanha, França, Holanda, Bélgica e Alemanha. Os azulejos nas fachadas caíram no gosto da burguesia em ascensão. Andando pelo Centro do Rio, ainda é possível encontrar alguns exemplos dessa época. Na Rua do Rosário, os três andares da fachada da Brasserie Rosário, que funciona numa construção de 1865, são cobertos por um azulejo de nome curioso: “estrela e bicha”.

Gustavo Miranda / Agência O Globo

— É um azulejo que pode ser tanto português quanto holandês. Os holandeses chamam de quatro estrelas. Os portugueses de estrela e bicha, por causa das estrelas nas pontas e de um friso no meio — conta Dora, afirmando que nem sempre é possível determinar a origem dos azulejos. — Não havia exclusividade no padrão. Até o final do século XIX, as fábricas de Portugal e Holanda não gravavam uma marca. Uma vez, levei um azulejo até uma fábrica holandesa do século XVII para que pudesse ser identificado, porque ele era idêntico a outro, português.

Dora afirma que, por um bom tempo, o azulejo, como parte da cultura portuguesa, foi menosprezado. Ele volta à moda nas comemorações de um século da Independência do Brasil, em 1922, junto com o estilo neocolonial. Paralelamente, os modernistas adotam a arte. Os painéis de Cândido Portinari no Palácio Capanema, no Centro, com suas figuras marinhas, são um dos conjuntos mais preciosos da cidade: — Portinari inova de uma forma interessante, porque ele guarda diretrizes tradicionais da azulejaria portuguesa. Trabalha com a ideia da malha e da diagonal, que são a essência dos azulejos de Portugal, mas com atualidade e liberdade.

Gustavo Miranda / Agência O Globo

Outro que inovou foi Athos Bulcão, autor de dois painéis sob o arco do Sambódromo, com o uso livre das peças, garantindo o elemento surpresa.

Os azulejos, segundo Dora, mesmo quando usados de forma utilitária, conservam um lado decorativo — Foi moda no Rio a azulejaria no começo do século XX. Na Europa, eram usados em lareiras. Aqui, foram adotados nas varandas, que eram o local mais fresco da casa — conta.

Outra moda em Portugal que pegou por aqui foi a dos santinhos em azulejos, ou “registos”, que surgiram lá depois do terremoto de 1755 em Lisboa, como forma de proteger a casa.

A origem da azulejaria portuguesa remonta ao século XV, quando o rei dom Manuel visita Alhambra, na Espanha, e é seduzido pela técnica do alicatado (gravuras feitas a partir de plaquinhas recortadas). No século XVI, chega a Portugal a técnica italiana da faiança, que acabaria predominando. Dora lembra que, ainda no Rio, o Museu do Açude abriga uma coleção de azulejos portugueses dos períodos joanino e de dona Maria I.

Discípula do português João Miguel dos Santos Simões (1907-1972), o maior investigador da azulejaria portuguesa, Dora é vista como a maior autoridade no assunto no Brasil. Seus estudos começaram por São Luís, mas depois percorreram várias cidades do Brasil. Moradora da Lagoa, onde guarda alguns painéis antigos, hoje ela escreve um livro sobre a azulejaria de Belém e dá aulas no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB).

7 comentários:

  1. Olá. Acompanho este blog com grande interesse. Tenho alguma coisa de azulejos em botequins no meu. Um abraço.

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  2. Viva Fábio
    sobre a ida de D. Manuel I a Granada, creio que deve haver alguma confusão.
    Que seja sabido, foi o primeiro filho de D. Manuel I, denominado D. Miguel da Paz, herdeiro dos tronos de Portugal e Espanha, que faleceu em Granada com 2 anos de idade, mas este facto deveu-se a ele ter ido viver com os avós, a rainha Isabel a Católica e Fernando de Aragão, para ser educado como infante herdeiro dos dois reinos. Faleceu antes de isso ser possível.
    D. Manuel I (reinou de 1495 a 1521) nunca esteve em Granada, que se saiba, e, de qualquer maneira, ele não necessitaria de ir ao Alhambra, ou qualquer outro sítio em Espanha, para ver azulejos hispano-árabes, pois tinha-os aqui em Portugal, e em vários edifícios que, aliás, conhecia perfeitamente, porque os visitava amiúde, sendo um deles uma das suas residências favoritas, o Palácio da Vila de Sintra.
    Este Palácio Nacional de Sintra (que visitaste comigo) possui os painéis de azulejo mais antigos que são conhecidos em Portugal (segundo as fontes conhecidas), provenientes do séc. XV, de origem hispano-árabe, assim como a cidade de Coimbra, com três edifícios ostentam revestimentos azulejares dessa época, como a Sé Velha de Coimbra, Igreja de Santa Cruz e Colégio de Sto. Agostinho.
    Poderás consultar este documento sobre este assunto
    https://estudogeral.sib.uc.pt/bitstream/10316/18156/1/disserta%C3%A7%C3%A3o%20paginada.pdf

    Assim, creio que talvez haja alguma confusão neste dado, o que é natural. Ou então serei eu que estou confuso, também é de admitir, mas será necessário rever as fontes
    Abraço
    Manel

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    1. Manel, concordo contigo. Tem outro ponto que discordo do artigo, mas como se tratava de um "repost", e por uma questão de delicadeza com a querida Mestra, preferi não mexer nem comentar nada. Já aqui em baixo, é mesmo território para estes reparos e questionamentos.
      abraços!

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  3. Dora Alcântara é de facto uma referência nos estudos de azulejaria, quer em Portugal, quer no Brasil e merece esta homenagem que aqui lhe fizeste.

    De facto, os reis portugueses da primeira e segunda dinastia não tinham o hábito de viajar para fora do seu País. Excepção feita às expedições em Marrocos. D. Sebastião perdeu por lá vida. O primeiro rei de Portugal, a viajar para fora, foi já na dinastia de Bragança, no início do séc. XIX, o nosso D. João VI, que foi até ao Brasil, na altura um domínio português.

    Julgo que a Dora Alcântara não terá dito que D. Manuel foi a Granada. Provavelmente, os jornalistas da Globo, transcreveram de uma forma um pouco mais atrapalhada alguma afirmação daquela investigadora sobre a influência da azulejaria sevilhana na génese do surgimento do gosto pelo azulejo em Portugal.

    Um abraço

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    1. Exato Luis, penso o mesmo - não creio que tenha sido a profa. Dora a dizer tal bobagem, mas sim um deslize do jornalista que editou a história.
      abraços!

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