sexta-feira, 29 de março de 2013

Lapa VIII - Igreja Nossa Senhora do Desterro


Volto a mais uma igreja com cúpula, bem como as torres, azulejadas, a Igreja de Nossa Senhora do Desterro, cujo nome completo é Igreja de Nossa Senhora do Carmo da Lapa do Desterro, e que alguns chamam simplificadamente como Igreja de Nossa Senhora da Lapa, ou ainda, apenas Igreja da Lapa.

Mais uma vez, como vemos pelo seu nome completo, esta é uma igreja carmelita, e como em vários exemplos anteriores, possui a sua cúpula azulejada.


A Capela primitiva foi construída em conjunto com um Seminário em terreno doado pelo Capitão Antônio Rabelo Pereira, no ano de 1750. A iniciativa das obras coube ao missionário apostólico Padre Ângelo Siqueira em 1751. À época possuía a invocação de Igreja de Nossa Senhora da Lapa do Desterro.


Em 1810, por decisão do Princípe-Regente, Dom João VI, a Igreja e o Seminário foram cedidos aos frades Carmelitas, em troca do Convento e Igreja que esta congregação possuía na atual Praça XV, e que passaram a ser utilizadas pela Corte. A partir de 1810, portanto, a capela e o antigo seminário, transformado em casa conventual, passaram a se denominar de Nossa Senhora do Carmo da Lapa.


No dia 24 de outubro de 1810, a imagem de Nossa Senhora do Carmo foi entronizada no altar-mor da capela. Em 1824, a Igreja foi reconstituída, em 1827 ergueu-se o arco do cruzeiro, as reformas duramdo até julho de 1849, quando o templo foi abençoado. Um novo período de reforma ocorreu em 1881 quando foram realizados trabalhos de douração e pintura decorativa "adamascado". A igreja possui frontispício de linhas sóbrias, com empena triangular, revestimento completo de azulejos do século XIX guarnecem as duas torres da fachada (segundo o Iphan; eu tenho lá minhas dúvidas...), apenas uma é sineira, pois a outra, inacabada, teve a sua conclusão prevista para quando a igreja se tornasse matriz, o que nunca ocorreu.


Os quatro sinos de seu campanário datam de 1781, 1782 e 1866. Três portas dão acesso ao interior do templo, que tem nave única e quatro altares; três janelas clareiam o coro. No altar-mor está a imagem de Nossa Senhora do Carmo, cujo camarim foi executado por Mestre Valentim. Possui a igreja, apesar do incêndio, algumas peças de grande valor, como as telas atribuídas a João de Souza, e as imagens dos Apóstolos chapeadas de prata, atribuídas a Mestre Valentim.

Dom Pedro II esteve presente à diversas festividades do Espírito Santo realizadas no templo. No interior da Igreja de Nossa Senhora do Carmo da Lapa estão depositados os restos mortais de Frei Pedro de Souza de Santa Mariana, preceptor de Dom Pedro II quando infante. Contíguo ao templo existe a Capela da Irmandade de Nossa Senhora da Lapa. (fonte >> Iphan)


O texto acima, por ter sido escrito por técnicos do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), deveria ser tomando como correto. Porém, eu ainda não fui convencido a concordar que os azulejos que revestem as torres e a cúpula sejam sequer do século XIX. Uma outra fonte afirma que os azulejos seriam portugueses, mas por aqui o lugar comum é que azulejos antigos são todos portugueses, o que eu já cansei de provar que não se aplica, muito menos no Rio de Janeiro.


Antes de mais nada, eles NÃO se parecem com azulejos do século XIX. Outra questão é que eu não pude medí-los, o que já seria uma boa pista, e também que embora tenha procurado, eu não encontrei os padrões que podemos ver nos azulejos desta igreja em nenhum catálogo ou foto em Portugal ou Holanda. Se realmente forem do século XIX, teriam de ser muito do final deste século, pois como podemos ver nas fotos dos detalhes, os azulejos parecem todos feitos por técnica industrial de impressão ou transferência.





Uma coisa curiosa é a variedade de cercaduras usadas na cúpula, base da cruz e torres. Vejam os detalhes:






Abaixo vemos imagens da igreja desde 1817 até meados da década de 1910. Nas duas primeiras imagens (1817 e 1865) me parece claro que as torres e a cúpula não estão azulejadas. Estes elementos me parecem nitidamente brancos. Nenhum problema até aí, pois a igreja poderia ter sido azulejada depois de 1865. Mas vejam as quatro fotos seguintes, já do início do século XX: as torres e as cúpulas ainda me parecem completamente brancas, sem azulejos. A última foto então, é de 1926, e para mim as torres e a cúpula continuam brancas.

1817 -  Aquarela de Thomas Ender.
1865 - Foto do suíço Georges Leuzinger.
detalhe de foto de Marc Ferrez, 1885

circa 1900 - Foto de autor não identificado.
circa 1908 - Foto de autor não identificado.
1926 - Foto de autor não identificado.
Estas imagens são as principais razões por eu ter afirmado anteriormente que não creio que a igreja tenha sido azulejada externamente no século XIX, como se afirma nas fontes citadas. Este azulejamento deve ter acontecido muito depois, pela foto acima, depois de 1926, pelo menos. Quem sabe a igreja foi azulejada durante a "moda" neocolonial, que começou pelo final da década de 1910, mas tomou fôlego justamente pelo final dos anos 1920, e perdurou até meados da década de 1930.

A igreja em seu interior apresenta também silhares azulejados. No dia em que fotografei a ingreja por fora, ela estava fechada, então a única foto que posso apresentar foi esta a seguir, obtida no Google:


Estes azulejos eu acho que podem ser belgas ou ingleses; eu ainda não os pesquisei adequadamente, até por não ter uma foto melhor dos mesmos, o que vai ter que esperar o dia que eu me encontrar na região com máquina fotográfica, e a igreja aberta.

Abaixo, em foto de Ivo Korytowski, os azulejos da fachada da casa conventual e capela da Irmandade de Nossa Senhora da Lapa.


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atualização em 14/12/2014

Esta semana estive no interior da igreja, infelizmente sem máquina fotográfica, mas para minha surpresa, há um festival de padrões lá dentro, sendo que na sacristia há inclusive o mesmo azulejo usado na parte de baixo das torres.

Os azulejos do silhar da nave apresentam 2 padrões. sempre com a mesma cercadura. Eles medem 10,4 x 10,4 cm, ou 4.1" x 4.1". É uma medida que me parece descartar a hipótese de serem azulejos brasileiros. E a técnica de impressão dos padrões parece mesmo um transferware como os usados em louças de faiança pelo século XIX e início do XX. Acredito até que a matriz dos desenhos é gravura em metal. A cercadura é também de tamanho completo, e não metade.

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atualização em 27/7/2016

Hoje, naqueles maravilhosos acidentes de internet que vez ou outra nos acontece, acabei por me deparar com um catálogo de 1889 de uma fábrica francesa de revestimentos cerâmicos. Mal abri a primeira página, e não podia acreditar! Lá estavam quase todos os azulejos da Igreja de Nossa Senhora do Carmo da Lapa do Desterro! Para ver o novo post sobre esta descoberta, visite este link [>>].

6 comentários:

  1. Os azulejos não parecem de todo tugas, mas o que me encantou foram as imagens antigas e as velhas fotografia da Igreja antes de estar rodeada de prédios hediondos. Realmente o Rio de Janeiro era uma cidade portuguesa típica, com a arquitectura tradicional semelhante a Angra do Heróismo, Braga ou Bragrança. Ainda para mais ando a ler agora uma obra deliciosa. "A longa viagem da biblioteca dos reis", de uma senhora brasileira, Lilla Moritz Scharwarcz e as imasgens, que me apresentaste transportaram-me de imediato para esse Rio de Janeiro, no tempo em que a Corte portuguesa aí se instalou, fugida das tropas de Junot.

    Um abraço

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    1. Uma vez mostrei fotos da Travessa do Comércio, um rua que é sempre usada como locação em filmes de época, para um amigo de Braga, e ele ficou boquiaberto que aquilo era no Rio, e não na cidade natal dele.
      Falando em patromônio arquitetônico, ontem o fogo consumiu mais 6 casarões lindos, da virada do século 19 para 20 na região de comércio popular conhecida como SAARA. E há suspeitas de ter sido incêncio criminoso. Nem preciso dizer o quanto isto me derrubou. Está ficando patético isso por aqui.
      abraços!

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  2. Que interessante Fábio!
    As fotos sobre a Travessa do Comércio antiga poderiam perfeitamente reportar-se às ruelas e travessas junto à zona do Cais do Sodré, onde igualmente abundam as arcadas, não fora esta zona estar em terreno muito acidentado, já na subida para o Bairro Alto.
    Estas nossas cidades de Lisboa e Rio de Janeiro nem sempre tiveram as costas voltadas!

    As fotos antigas são fabulosas e o teu ponto de vista está perfeitamente provado com documentação da época.
    Ainda poderia dar-se o caso de serem azulejos de recuperação, mas nem isso me parece viável, dado o volume do edifício e a forma harmónica e congruente com que foram dispostos. Será seguramente uma encomenda destinada exclusivamente a esta igreja.
    Quanto aos azulejos não me parecem de todo portugueses, pois não reconheço estes padrões. Com certeza poderão ser já brasileiros, como afirmas de forma bastante pertinente.
    Manel

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    1. Olá Manel,
      Não é à toa que a Travessa do Comércio e o Arco do Teles são locação obrigatória de filmes de época. Nesta rua morou Carmem Miranda, cujo pai trabalhava no Mercado Municipal, que naquela época ficava a poucos passos do local.
      Nossas cidades não deveriam mesmo ter as costas voltadas, isso é um erro que tanto brasileiros quanto portugueses cometeram por razões históricas conhecidas, e até de certo modo, compreensíveis. Mas já passou da hora de reatá-las.
      abraços

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  3. Fabio, as fotos que postou para afirmar que não haviam azulejos na fachada, elas parecem bem estouradas de luz. Será que isso não influenciaria na visibilidade dos azulejos? E na aquarela derrepente por falta de tempo ou espaço para os detalhes mais mínimos, ficou assim mesmo branca...

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