quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Centro VIII - rua da Constituição


Estou a cada dia mais convencido de que (infelizmente) a maioria dos azulejos de padrão do século XIX que ainda podem ser encontrados pelo Centro do Rio de Janeiro são holandeses, ao contrário do que muita gente pensa. Talvez por uma inércia cultural, tendemos a achar que tudo o que é antigo aqui é lusitano.


Digo "infelizmente" pois comecei esta caçada fotográfica dos azulejos antigos pelo Centro do Rio como uma tentativa de manter minha ligação afetiva com Portugal, buscando perto de mim este elemento tão significativo da cultura lusitana.

Já publiquei aqui vários exemplos, que em conversas informais com os frequentadores lusitanos deste blog, confrontávamos esta questão, se os azulejos seriam portugueses ou holandeses. Minha suspeita de que poderiam ser holandeses partia de dois fatos:

1) vários azulejos de padrão que encontro por aqui não são vistos em Portugal (com a enorme excessão do "Estrela e Bicha", que é muito comum em Portugal, mas que foi também fabricado na Holanda);

2) milhares de cacos de azulejos que ajudei a limpar e catalogar, oriundos de uma escavação arqueológica no Centro do Rio de Janeiro, onde até 1922 foi a praia de Santa Luzia, aterrada com o material do desmonte do Morro do Castelo, são todos, segundo a professora Dora Monteiro e Silva de Alcântara, maior autoridade brasileira no assunto, de origem holandesa.

E hoje, me ocorreu procurar na própria internet algum bom catálogo de azulejos holandeses, e bastou procurar "Nederlandse tegel", e BINGO! O que não me falou foram referências. E com estas, consegui confirmar que vários dos azulejos encontrados pelo Centro do Rio de Janeiro, que tenho publicado aqui neste blog, e que já fotografei, mas ainda não publiquei, são confirmadamente de origem holandesa.

rua da Constituição


Estes dois imponentes sobrados apresentam apenas 2 tipos de azulejos: um com padrão marmorizado, cmplementado por uma cercadura em gregas.



O padrão marmorizado em destaque, em uma foto obtida de um catálogo online de azulejos holandeses antigos:


O azulejo de cercadura em gregas, em uma foto obtida do mesmo catálogo online de azulejos holandeses antigos:

Estes azulejos foram também abundamente encontrados nos cacos da escavação arqueológica da antiga praia de Santa Luzia, e já tinham sido, como quase todos os cacos, identificados pela Professora Dora como sendo holandeses.

E aí a gente pode se perguntar qual a razão de se usar tantos azulejos holandeses no Rio de Janeiro, apesar da forte ligação histórica e comercial entre o Brasil e Portugal, ainda mais no século XIX, quando a corte portuguesa se transferiu para o Brasil. Não sei responder, mas posso "chutar" umas hipóteses.

Pode ter sido consequência da "abertura dos portos às nações amigas" que os ingleses impuseram a D. João VI, como uma das condições para auxiliarem a corte portuguesa em seu traslado para o Brasil, na fuga da invasão naopleônica. Uma vez "abertos os portos", o monopólio português nas importações brasileiras, que havia até então, foi perdido. Recentemente publiquei inclusive fotos de um sobrado no Centro do Rio que é todo revestido com azulejos provavelmente ingleses.

Há sobrados no Rio, construídos antes da proclamação da República, que são revestidos com azulejos holandeses. Ou seja, D. Pedro II, que embora nascido no Brasil, ainda carregava consigo toda a tradição da corte e da cultura portuguesa, ainda morava e governava o Brasil de São Cristóvão, mas os azulejos que estavam sendo usados na cidade não eram em maioria portugueses!

E depois da proclamação da República, quando o país viveu um período triste, porém compreensível (embora não aceitável), de aversão e desprezo de tudo que fosse lusitano, é ainda mais fácil entender as razões para se usarem azulejos de todos os países, menos de Portugal. Neste período, o comércio entre Brasil e Portugal chegou a zero.

Como podemos ver neste anúncio de 1889, do Almanach Laemmert, o principal do país à época, estão anunciados apenas azulejos franceses e holandeses.


Para complicar ainda mais, os azulejos holandeses, via de regra, tinham dimensões próximas dos azulejos portugueses, sendo entre 13 e 13,5 cm nos azulejos holandeses, e entre 13,5 e 14 cm nos azulejos portugueses. E naturalmente, havia cópia de padrões entre as fábricas de um mesmo país, e dos vários países produtores. Como exemplo, temos o padrão "Estrela e Bicha", que foi largamente produzido em Portugal e na Holanda. Desta forma, a única maneira de tirar de vez a dúvida, seria analisar as pastas dos azulejos, algo que me está fora do alcance.

De toda forma, o USO dos azulejos, seja lá de qual origem, para cobrir fachadas de construções, é algo tradicionalmente luso-brasileiro. Na Holanda, como originalmente em Portugal, os azulejos eram usados apenas nas paredes internas das habitações, principalmente nas cozinhas, copas e para cobrir lareiras.

Na verdade, existe ainda uma certa polêmica, entre os estudiosos do tema em relação a essa inovação do uso do azulejo em fachadas. Santos Simões, historiador português, afirma categoricamente que essa é uma invenção brasileira, enquanto que os especialistas brasileiros Dora Alcântara e Mário Barata atribuem tal invenção a Portugal. Além de embelezar as fachadas, o azulejo tinha a função utilitária de proteção em situações de umidade, característica do nosso clima tropical, agravadas nas cidades litorâneas ou cidades situadas às margens de rios.

Então, mesmo que os azulejos usados no Rio de Janeiro sejam holandeses, franceses, ingleses ou mesmo alemães, ainda assim estas construções cobertas de azulejos, pela prática do uso dos mesmos, e por sua tipologia arquitetônica, ainda funcionam para mim como um forte elo afetivo com meus "irmãos" lusitanos!

2 comentários:

  1. Caro Fábio,
    mantenho uma coleção (cerca de 1.000 peças),de azulejos (portugueses,
    alemães,franceses,ingleses,belgas,holandêses,espanhois),ptincipalmente
    dos séculos XVII ao XX.A ilustre professora Dora Alcantara esteve em minha exposição no Palacete Pinho(Belém).Gostaria de conhecer sua obra..
    Rosa Lúcia Soares.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá Rosa, seja bem vinda!
      Não entendi o que você quer dizer por "minha obra".
      abraços!

      Excluir