terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Catete Ib - rua Bento Lisboa


Nesta postagem apresento um antigo sobrado no Catete, usado atualmente por uma padaria, cujo proprietário parece se preocupar apenas com o aspecto interno de seu estabelecimento, como se a parte externa fosse menos importante.


Como podemos ver em todas as fotos nesta postagem, a fachada azulejada e os telhões de faiança pintada estão em péssimo estado, talvez uns dos piores conjuntos que já publiquei aqui. A parte térrea do imóvel certamente já sofreu várias modificações na fachada; originalmente as portas deveriam ser alinhadas pelas janelas do pavimento superior, e teriam molduras iguais às das janelas, esta marquise certamente não existia em seus anos de glória.

Uma coisa que acho bem estranho é apenas a fachada voltada para a rua principal ter azulejos. Me pergunto se sempre teria sido assim. Mas como as janelas da fachada lateral parecem não ter moldura em cantaria, mas em argamassa pintada, talvez sempre tenha sido assim mesmo: uma fachada mais "rica", e uma mais "pobre". Tenho certeza que o Raul Félix irá nos falar melhor sobre este tópico.


Na foto abaixo vemos o ano de construção do imóvel: 1872. Apenas 50 anos depois da independência do Brasil, quando o país ainda era um Império, os escravos não eram livres (isto só viria a acontecer em 1888), e ainda se passariam 17 anos até a proclamação da República. Quanta história este velho senhor já presenciou! Merecia mais carinho e cuidados.


Nas duas fotos seguintes podemos ver melhor o azulejo de padrão usado na fachada. Ao invés de uma cercadura desenhada, usaram apenas azulejos azuis lisos.



O azulejo parece ter sido pintado com uso de estanhola. Infelizmente não me foi possível medí-los, pois estão todos no alto, mas o prédio apresenta diversos remendos executados com diversos azulejos diferentes, sendo que em 2 casos com azulejos reconhecidamente franceses, e com estes remendos podemos ver que os azulejos originais da construção do prédio são do mesmo tamanho que os azulejos franceses.




No caso abaixo o remendo foi feito com um velho conhecido aqui do blog, um típico azulejo do norte de Portugal, que pode ter sido fabricado em Vila Nova de Gaia ou no Porto. Percebam como o azulejo português é bem maior que o azulejo de padrão usado no prédio.

Pela comparação de tamanho, eu acredito que o azulejo usado originalmente no imóvel seja francês. Seria necessário encontrar amostras deste padrão em algum catálogo para que se pudesse ter um pouco mais de segurança nesta afirmação, mas já é ao menos um indício de origem.


Nos cantos superiores o imóvel apresenta uma ornamentação formada por um conjunto de quatro azulejos. O interessante é que outros imóveis neste mesmo bairro apresentam o mesmo ornamento, na mesma posição. Isto pode ser visto, por exemplo, nesta postagem.



O estado dos telhões de faiança me deixa deprimido. Há muitos já bem destruídos, há pedaços onde já não há mais telhões, e todos os demais, mesmo que inteiros, estão imundos, algo que uma boa limpeza já faria muita diferença. Deve ter sujeira aí com mais de 100 anos!





Esta última foto mostra algo que já notei ser bem comum nos beirais de telhões de faiança no Rio de Janeiro: vez ou outra, aparecem telhões de padrões diferentes. Não sei se isto era um descuido já nos tempos da construção dos prédios, ou se foi uma reposição mal feita tempos depois. Mas é mesmo algo que acontece em muitos dos beirais que já fotografei para este blog.

17 comentários:

  1. Oi, Fábio,

    Não há dúvida de que este sobrado tem uma fachada nobre e uma fachada pobre datando ambas da época da construção. Há coerência estilística e, embora os materiais de uma sejam mais baratos, a qualidade do acabamento em gesso é idêntica. Aliás a fachada pobre não é tão pobre assim pois os telhões também estão lá, embora em pior estado que na frente. De facto, este lindo imóvel está numa condição lamentável. Abriga a tradicional Padaria Viriato, que teve seus tempos de glória quando era na Rua do Catete, num prédio que foi demolido por ocasião das obras do metrô, em meados dos anos 70 (fui muitas vezes com meu pai comprar pão lá). Transferida naquela ocasião para a Rua Bento Lisboa - acho que a marquise e as portas largas já estavam lá antes deles - continuou no gosto de sua freguesia antiga, agora com o nome de Nova Viriato. Foi por muito tempo referência na região por seu frango assado na lenha, com um molho de ervas de inspiração portuguesa cuja receita só eles sabem (sei que entra alho, alecrim e vinho). Entretanto nos últimos anos tem estado infelizmente, também a loja, cada vez mais decadente. Jamais vi qualquer obra no segundo andar e nem sei se este é administrado pelos mesmos donos da padaria.

    Abraços cariocas a todos,

    Raul.

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    1. Olá Raul,
      Gostei do seu "de faCto"; é para se fazer entender pelos nossos amigos lusitanos? ;-)
      Você levantou um ponto interessante -- não sabemos se o pavimento superior é de responsabilidade da padaria. Tendo a achar que sim, mas pode ser que não seja.
      Eu sabia que sua avaliação arquitetônica acabaria com minhas dúvidas, mas ainda desta vez você me fez sentir cheiro de frango assado com molho de ervas, e sentir fome! :-)
      abraços

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  2. Olá Fábio,
    Que bom poder contar com a opinião fundamentada de alguém que também se interessa por estes materiais e luta para os conservar, ou pelo menos para preservar a sua memória...
    Ao ver o mau estado de conservação destes beirais, comparativamente aos de cá, excepto 2 ou 3 casos no Porto, penso que será por razões de clima que isso acontece – chuvadas e ventos fortes, muito calor e muita humidade não devem dar saúde nenhuma à faiança. No caso desta casa parece-me que a alguns telhões já não há limpeza que lhes valha.
    Uma outra hipótese, que poderia também justificar as diferenças que se encontram no Porto, seria o processo de fabrico, com alguns a serem feitos de pastas mais fracas, piores vidrados, sei lá... A verdade é que há beirais em estados de conservação totalmente diferentes e a idade deve ser aproximada, qualquer deles terá certamente mais de cem anos(?).
    É só uma reflexão que quis aqui partilhar convosco.
    Curioso também o uso dessa quadra de azulejos como espécie de assinatura. Por cá nunca vi.
    Abraços

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    1. Olá Maria Andrade,
      Acho que você tem razão sobre o tanto que a faiança exposta ao ar livre assim deve sofrer muito mais por aqui com as intempéries tropicais. Mas se há vários outros imóveis com telhões por aqui, em estado muito melhor do que estes, acredito que a principal razão do estrago dos telhões que vemos nas fotos acima é o abandono e falta de cuidado mesmo. Até mesmo na rua Farnese (que eu ainda vou publicar fotos novas), que são 3 casas atualmente habitadas por pessoas simples, que eu duvido fiquem regularmente limpando os seus beirais, os telhões estão anos luz em melhor estado do que estes da rua Bento Lisboa.
      É triste ver um patrimônio destes apodrecendo assim.
      b'jinhos

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    2. Ah! Esqueci. Esta "assinatura" (gostei de sua ideia) com uma quadra de azulejos não é tão incomum por aqui. Imagino que um dia um construtor fez isto, e passou a ser copiado por outros. Há vários imóveis por aqui que possuem friso superior (há imóveis com até 2 frisos), e nos extremos dos frisos há uma quadra de azulejos diferenciado de todos os demais. Varias os azulejos, é certo, mas está lá quase sempre a quadra "assinando" o imóvel.
      Seria até interessante se cada construtor tivesse mesmo eleito um azulejo determinado como sua assinatura!
      b'jinhos

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  3. Oi, Fábio,

    Sou defensor fervoroso do c de faCto. Algum dia ainda vou escrever sobre isto. O frango assado era mesmo muito bom. Até uns cinco anos atrás, nos finais de semana havia sempre fila na porta. Hoje o estabelecimento está muito largado, mas se você quiser se arriscar, podemos comprar um quando formos fazer alguma expedição fotográfica.

    Abraços,

    Raul.

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    1. Mas quando você vai a um evento formal, daí você veste um terno ou um fato? ;-)

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  4. Realmente preciso apurar mais o meu olhar, já passei algumas vezes por está rua e nunca tinha observado a riqueza dos detalhes desta fachada. Parabéns pela postagem!

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    1. Caro Mateus,
      Isto é normal!! Antes d'eu me tornar um afixionado por azulejos antingos, eu também não os notava. É impressionante a quantidade de locais que eu passo regularmente há muitos anos, como rua do Rosário e rua do Carmo, sem jamais ter notado a riqueza de azulejos em vários imóveis nestes endereços.
      E no caso específico da rua Bento Lisboa, e vários outros imóveis no Catete (e pela cidade toda!!) é tudo mérito do Raul Félix, que facilitou muito minhas "caça" aos azulejos.
      abraços!!

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  5. Fábio, por aqui também é assim, só comecei a notar mais depois iniciei os estudos de arquitetura. Aqui na região existem diversos casarões que utilizavam diferentes tipos de azulejos, amanha devo estar passando em alguns deles, aproveito pra fotografar e te mando as fotos, inclusive daqueles dois do Solar de Mandiqüera. Abraços!

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    1. Opa Mateus! Obrigado!!
      Isto será ótimo mesmo, pois se já é difícil dar contra dos azulejos apenas na cidade do Rio, imagina pelo estado todo, o que exige viagens. Sua colaboração será muito bem vinda, e agradecida!!
      Não se esqueça que se os imóveis não tiverem azulejos, mas tiverem beirais de telhões de faiança pintada, ou mesmo apenas pinhas, compoteiras, esferas e figuras de faiança também podem entrar neste blog.
      abraços!

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    2. Imagino mesmo o quanto deve ser difícil, já que são tantos, por aqui as casas de fazenda possuem, na maioria, azulejos apenas no interior. Entretanto as fachadas eram coroadas com jarrões e algumas figuras. Telhões já será difícil, o único casarão que possuía se perdeu num incêndio anos atrás. Ainda assim, creio que consigo uns seis azulejos diferentes e algumas outras peças. Abraço.

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  6. Oi, Fábio,

    A propósito, acho que você ainda não viu meus telhões de Campos dos Goitacazes que fotografei em 2009 e coloquei recentemente no Panoramio.

    Abraços,

    Raul

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    1. Oi Raul, valeu pelo toque! Quando eu estive lá da última vez ainda não havia estas fotos. Vou trazer pro blog, ok?
      abraços!

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  7. Oi, Fábio,
    Quando te disse que era perfeitamente possível a existência de uma fachada nobre azulejada e outra mais pobre, emboçada, não me ocorreu nenhum exemplo. Agora me lembrei de um, aquele casarão da Rua do Riachuelo que foi tristemente vandalizado em 2008, e que agora por conseguinte tem duas fachadas pobres. Vou continuar tentando achar mais exemplos.
    abraços,
    Raul.

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    1. Olá Raul,
      Obrigado pela lembrança. Se não me engano, o imóvel na Riachuelo é usado também por uma padaria.
      abraços!

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