sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Centro XXVIIb - rua do Carmo

Em outubro do ano passado eu fiz uma postagem sobre um pequeno oratório, dedicado à Nossa Senhora do Cabo da Boa Esperança, na rua do Carmo, que pertence à Igreja da Ordem Terceira do Carmo. Esta postagem pode ser consultada neste link.

Na ocasião, devido ao tipo de design e de impressão, e principalmente pelo seu tamanho pequeno, julguei que os azulejos pudessem ser franceses.


Depois, a amiga Maria Andrade me avisou que o padrão apresentado no azulejo principal da decoração do púlpito da capelinha é encontrado também em Portugal. Daí me lembrei que havia visto prédios com este azulejo no Porto e Lisboa. Recentemente os amigos LuisY e Manel me enviaram referências bibliográficas sobre a produção deste padrão em Portugal.

Só que neste meio tempo, consultando o fabuloso catálogo do Museu do Azulejo da Holanda, descobri que esta decoração foi também produzida na Holanda, e para minha surpresa, num tamanho diferente do habitual holandês (13x13 cm), bem menor (10x10 cm), menor até mesmo que os azulejos franceses!
ficha do azulejo em questão, no acervo do Museu do Azulejo da Holanda.

Embora eu não tenha podido medir os azulejos do púlpito, no dia 1° passado eu estive fotografando imóveis com azulejos no bairro do Catete, onde há dois sobrados geminados que usam este mesmo azulejo, e lá eu os medi: exatos 10x10 cm! No post anterior eu apresentei fotos deste padrão em azulejos portugueses, e comentei que o design não é exatamente o mesmo dos azulejos encontrados no Rio de Janeiro. Já o azulejo no acervo do Museu do Azulejo da Holanda é idêntico em todos os aspectos de design ao que temos no Rio, no púlpito no portão dos fundos da Igreja do Carmo, nos dois sobrados do Catete, e mais alguns imóveis aqui no Rio.

detalhe dos azulejos do púlpito.
o azulejo holandês, visto na ficha acima.
Desta feita, agora acredito que os azulejos usados neste púlpito sejam ambos holandeses. Pena não ter encontrado o outro padrão, que foi usado como cercadura, também no catálogo do Museu do Azulejo da Holanda.
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Atualização em 5/1/2013
O amigo Manel me propôs por email se "Engels net" não poderia ser "rede" ou "renda" inglesa. Ele já havia me dito antes que este padrão em Portugal se chama "crochet". E só aí me bateu que o desenho central do padrão parece mesmo um naperon. Depois de muito vai e vem entre Google Translator e um dicionário online de holandês/inglês, e consultas ao Google Images, eu acho que ele pode estar certo, pois apesar de "renda" em holandês ser, à princípio, "kant", e "net", em holandês significar "justo, exato, exatamente", e também "elegante, bom, bonito", o termo "engels net", quando pesquisado assim, junto, entre outras coisas, traz sites e fotos de vestidos de casamento! E se olharmos a descrição dos tais vestidos, está lá, entre outros termos em holandês, o "engels net".
Então, talvez uma tradução possível para o nome deste padrão holandês seja "renda inglesa".

6 comentários:

  1. Creio que tens razão Fábio, pois, e ainda na referência bibliográfica que te enviei antes, por email, refere-se, no capítulo dedicado às dimensões do azulejo do século XIX, o seguinte:
    «As diferentes dimensões dos azulejos podem fornecer indícios sobre a sua origem: as fábricas de Sacavém, Desterro e Lusitânia baseavam a sua produção no azulejo de 15x15 cm, enquanto a Fábrica da Viúva Lamego produzia azulejos de dimensões mais reduzidas (13x13 cm ou 14x14 cm), o mesmo acontecendo com as Fábricas das Devezas, Carvalhinho e Constância. Apenas foi encontrado um exemplar das Devezas com 15x15 cm que, curiosamente, reproduz através da técnica de estampilha um dos desenhos mais frequentes dos azulejos estampados da Fábrica do Desterro. É claro que estas dimensões nem sempre são exactas uma vez que a retracção do material, por efeito do calor, é bastante variável. Mas aquilo que podemos dizer é que, dum modo geral, os azulejos de Sacavém, Lusitânia e Desterro são maiores do que os originários de outras fábricas.»
    Assim sendo, estas dimensões que aqui referes não parecem ter sido produzidas em Portugal
    Manel

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    1. Olá Manel, obrigado por mais esta informação (ou "achega", como dizem vocês). Da próxima vez que for à Portugal (que seja logo!!!), preciso gastar algumas dezenas de reais em livros sobre o assunto. Melhor do que deixar no bolso para algum gatuno levar embora, como aconteceu em abril passado em Lisboa.

      Sobre as dimensões: queria que vocês pudessem ver os estes azulejos ao vivo, para ter a sensação clara de como são pequenos, perto dos outros, sejam holandeses no tamanho mais habitual, ou portugueses.
      O curioso é que atualmente se voltou a usar muito por aqui revestimentos cerâmico nos prédios(ainda bem! chega de mármore!!! não presta para nosso clima!!!), que não é exatamente azulejo, mais parece uma pastilha gigante (não sei se vocês tiveram a "moda" de pastilhas também, pelos anos 1940 a 1960, ou se isso foi uma invenção local). E este novo tipo de revestimento cerâmico tem exatamente 10x10 cm.
      As pastilhas também voltaram, mas curiosamente para uso interno, em cozinhas e banheiros, e agora, a moda são as pastilhas de vidro.

      abraços!

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    2. O uso desse tipo de "pastilha", mas pequena, utilizou-se sobretudo nos anos setenta, apesar de havê-la também nos sessenta. Um dos edifícios onde morei durante mais de 10 anos, encontrava-se numa rua onde todos eles estavam revestidos desse tipo de material, numa cor azul-acinzentado, o que fazia a rua um local tristonho e pouco caraterístico.
      Não creio que a moda deste tipo de pastilha pequena para interior seja, ou tenha sido, comum por aqui, ou pelo menos não tenho dado conta disso.
      No entanto tem sido utilizada em escala moderada até aos nossos dias, sobretudo em casas com intervenção de profissionais do ramo, mas julgo que nunca se tornou moda.
      Prefiro a utilização deste material em zonas húmidas da casa do que aquelas horrorosas placas cerâmicas, de grandes dimensões, revestidas de decorações a imitar mármores ou mesmo outras pedras menos nobres, rematados com frisos pindéricos à mistura (como se o resto já não fosse feio o suficiente)!
      Estes sim, colocam-me fora de mim, apesar de serem estes os revestimentos da cozinha e wc da minha casa de Lisboa, por isso cobri cada centímetro de parede com pratos e quadros, para que aquele revestimento medonho passasse despercebido! Brrrr ....
      Quanto ao mosaico de vidro, já era utilizado na arte bizantina e paleocristã, sobretudo no revestimento das cúpulas com dourados, em que a folha de ouro era colocada, tido sanduíche, entre camadas de vidro, e o efeito era tão belo quanto surpreendente (este tipo de revestimento foi o responsável pelos interiores "in ciel d'oro", do qual a Basílica de São Marcos, em Veneza é um dos exemlos mais famosos, se bem que esta obra é já mais tardia, do período românico)
      Abraços
      Manel

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    3. Olá Manel,
      Vou depois procurar fotos de prédios com pastilhas aqui, que como disse, tiveral seu auge entre os anos 1940 e 1960. Há exemplares muito simpáticos, alguns até formando padrões que de certar foram são uma reminiscência do gosto pelo padrão de azulejos.
      Pelo final dos anos 1960 e início dos anos 1970 surgiu a moda de revestimento com placas de cimento e outros materiais, com muito relevo e textura, uma coisa bem daquela época. Alguns são até curiosos, mas via de regra, ficaram velhos, por demais datados e feios.
      As pastilhas de vidro bizantina conheço bem de minhas viagens pela Itália! Adoro aqueles mosaicos. Mas, claro, as pastilhas que me refiro agora são completamente diferentes.

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  2. Caro Fábio

    Este teu blog deveria ser financiado pelas autoridades municipais do Rio de Janeiro. Em Portugal, há gente que recebeu dinheiro do Estado e da União Europeia para fazer uns sites de azulejos, encomendados a webdesigners da moda, mas que não tem informação nenhuma. Não são inventários. Não são nada.

    Por outro lado, este teu blog sobre azulejaria em casas cariocas serviu-me para pôr em causa ideias feitas sobre azulejaria portuguesa do século XIX. Sempre pensei que os padrões portugueses desse período eram originais, ou talvez nunca tivesse pensado muito nisso. Agora, percebo que muito motivos eram fabricados não só em Portugal como também na Holanda em França. No fundo a azulejaria portuguesa do século XIX já é uma arte internacional. A originalidade da azulejaria portuguesa está na forma como reveste integralmente a fachada da obra arquitectónica, transformando-a e valorizando-a. Esta criatividade é não só portuguesa como também brasileira.

    Um abraço lisboeta

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    1. Obrigado Luis pelo seu carinhoso e incentivador comentário!
      Certamente a azulejaria portuguesa já era uma arte internacional pelo século XIX, e em muito, graças ao uso tipicamente luso-brasileiro dos azulejos, cobrindo fachadas inteiras, coisa que só conheço em nossos países tão irmãos, por menos que nos demos conta. Não sei se em outras ex-colônias portuguesas este gosto e uso do azulejo também se implantou. Seria preciso pesquisar. Talvez Angola, talvez Macau.
      Eu acredito que inclusive o gosto luso-brasileiro pelo azulejo em fachadas (que de várias formas ainda persiste por aqui, e com novos materiais cerâmicos está agora em nova fase de plena expansão, particularmente prédios residenciais) não só deu novo gás à indústria portuguesa, como também a holandesa e francesa, pois a quantidade de azulejos destes países por aqui, Holanda mais na segunda metade do século XIX, e França na virada dos séculos XIX/XX, é ABSURDA!
      Eu já percebi que o Uruguai foi outro grande destino dos azulejos franceses. Se tivesse tempo, iria investigar se também dos azulejos portugueses e holandeses (estes últimos, parece que sim).
      O que ainda me coça o cérebro é qual foi o motivo para tanto, muito mesmo, azulejos portugueses terem sido usados no norte/nordeste do Brasil, e tão pouco no Rio de Janeiro, mesmo quando a arquitetura ainda era francamente lusitana, e a importação de telhões e figuras de faiança era plena.
      abraços!

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