quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Centro XIVb - rua Miguel Couto


Ontem fui ao Centro da cidade para fotografar alguns dos prédios que havia descoberto no Google Street View e através da busca do Google Images, e tive várias síncopes e prolapsos de tanta emoção. Houve um breve momento, muito muito breve, de uma fração de segundo, que talvez pela vertigem de olhar muito para o alto, eu fiquei confuso, como se tivesse acontecido um tele-transporte para as ruas de Portugal. Isso foi na rua  Teophilo Otoni, e em breve vou publicar as fotos desta rua. Mas não há como não ficar perplexo nesta rua muito estreira, calçada com pedras portuguesas (como a maioria das ruas no Rio) no passeio, e com paralelepípedos de granito na via, que ainda tem até mesmo casarões de primeira metade do século XIX, na esquina uma pequena igreja linda, exterior barroco, interior mais para o Rococó, e pensar "isso aqui também é Portugal!".


Mas vamos ao imóvel em questão, o primeiro encontrado, e muito provavelmente, único exemplar com fachada térrea recoberta por azulejos portugueses de figura avulsa! A loja faz parte de um mesmo prédio que toma todo o quarteirão, que é dividido em várias lojas. Este tipo de situação é muito comum na virada do século XIX para o XX por aqui: uma rua inteira que é praticamente uma galeria comercial ao ar livre.


Como afirmei no post anterior, os azulejos são de certa forma incompatíveis com o estilo arquitetônico do prédio, já do período eclético de influência francesa, que se disseminou após a Proclamação da República como uma nova linguagem estética, em oposição ao período colonial e a seguir do Império Brasileiro, marcadamente lusitano.



O mais estranho é que são 5 ou 6 lojas, e apenas esta tem azulejos na fachada térrea.




Como podemos ver abaixo, o azulejo tem 14x14 cm. É um tamanho compatível com os azulejos portugueses. E aproveitei uma parte onde estão faltando os azulejos de cercadura, para poder medir também a espessura dos azulejos: 6 mm.


19 comentários:

  1. Sensacional! Que coisa surpreendente, esta fachada de azulejos. E que azulejos!

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  2. Parabéns pelo blog. É necessário e urgente neste mar de desinteresse nacional!

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  3. Fábio

    Já há muito que ando para vir aqui cumprimentar-te pelo trabalho notável de inventariação do azulejo, que te propuseste fazer. Mas faltou-me o tempo e tens postado a uma velocidade tal, que mal te acompanho.

    Este trabalho de levantamento da azulejaria do Rio é interessantissima para os cariocas reencontrarem o seu passado e para nós portugueses um motivo de orgulho e uma forma de vermos, que ainda brasileiros e portugueses estão muito próximos.

    Um abraço e força

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    1. Olá caro amigo Luis,
      Obrigado por suas palavras; é um incentivo para que eu continue.
      Sobre o que você disse "uma forma de vermos, que ainda brasileiros e portugueses estão muito próximos", foi por causa disso que comecei esta pesquisa e depois o blog. Foi uma forma para que EU mesmo me sentisse mais perto de Portugal, o país que conheci, me apaixonei, e gostaria que fosse mesmo mais perto de mim. Mas como a passagem aérea é cara, e a distância geográfica muito grande, este ritual de procurar localmente o que nos une foi a forma possível de manter Portugal em mim.
      abraços!

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  4. Foi o Luís que me informou sobre este teu novo blog.
    Bonita a ideia de colocar os azulejos da minha cozinha nas abas do blog .... lol
    Creio que este arquivo de azulejaria deveria ficar registado em meio mais durável que o virtual, dada a sua importância, pois muitos destes espécimes irão desaparecer num futuro que se adivinha próximo.
    E as entidades competentes deveriam estar atentos a estas postagens, que poderá revelar-se de grande utilidade, se alguém pretender escrever e pesquisar sobre a história do azulejo em Portugal e no Brasil (se é que as pessoas ligam ao passado, o que é discutível, já sei ...)
    Os meus parabéns por esta nova aventura
    Manel

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    1. Olá Manel, tudo bom?
      Fico muito feliz em vê-lo por aqui. Os azulejos de tua cozinha estão aqui pois eu gosto muito deste padrão, ele é muito comum pelo Rio de Janeiro, e mesmo que em grande parte por aqui seja de origem holandesa, ele me faz sentir mais pertinho de Portugal.
      Tenho tentando chamar a atenção da Secretaria de Patrimônio aqui do Rio de Janeiro, mas não tive resposta. Outro dia mesmo verifiquei que um sobrado de 1854 foi DESTRUÍDO, teve todos os azulejos e relevos de estuque removidos, e pintado de uma cor horrorosa. Tenho medo que isto possa acontecer a outros mais, pois muitos estão em péssimo estado.
      imenso abraço!
      Fábio

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  5. Ainda sobre o dimensionamento dos azulejos, é verdade que as dimensões mais comuns são os 14x14 cm, apesar de haver grandes disparidades, sobretudo quando havia painéis de azulejo encomendados ou fábricas que produziam com dimensões variadas - por exemplo, este motivo "bicha da praça", segundo a fábrica e época em que forma feitos, variam dos 14x14 cm até os quase 18x18 cm - estes últimos creio serem os mais recentes.
    Também poderia variar se o azulejo era de padrão ou historiados, pois estes últimos, por serem quase sempre de encomenda, deveriam adaptar-se aos locais de uso final, pelo que o dimensionamento seria seguramente adequado.

    Quanto às espessuras, estas variam imenso.
    Por norma, apesar de haver exceções, a espessura deles varia sobretudo pela época de fabrico.
    Apesar de não gostar de generalizações, pois neste mundo do azulejo nada se pode tomar como adquirido e fiável, constato no entanto que os mais antigos, sobretudo os do século XVII (do XVI só tenho dois espécimes pelo que nada posso concluir a partir deles), são quase sempre os mais grossos, podendo a espessura ultrapassar o 1 cm e chegar quase aos 2 cm.
    As arestas destes azulejos são quase sempre em quina viva e o tardoz apresenta um chanfro pronunciado.
    Na medida em que nos embrenhamos no XIX, vão-se tornando cada vez mais delgados, chegando aos 5 ou 6 mm, e as arestas vão ficando algo mais boleadas, perdendo o chanfro pronunciado que tinham no tardoz. Mas poderei ser mais exato se, a partir de agora, tiver o cuidado de começar a proceder a medições, o que não tenho feito de forma sistemática.
    Claro que não me estou aqui a referir aos processos de fabrico, que estes sim, fazem variar grandemente a qualidade do azulejo, como tu e todas as pessoas que se dedicam a este campo bem sabem.
    Estas são algumas conclusões que fui tirando neste últimos anos pelo muito que vi, pois andei feito tonto a comprá-los como se fosse rico (que não sou! mas gostaria, confesso!).
    Bom sucesso nesta insana aventura em que te meteste ... creio que o sabes, claro, no entanto é sabido que os poderes públicos detestam ser acordados e chamados à atenção ... enfiam a cabeça na areia do silêncio, como se nada fosse com eles, e como se isso lhes valesse de muito. O futuro os condenará, apesar de tardiamente e de, então, não valer de nada!
    Manel

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    1. Manel querido,
      Obrigado pela aula!!
      Este é o primeiro caso, dentre os prédios onde os azulejos estão no térreo, o que me permite medí-los, onde os azulejos tem esta medida mais comum lusitana, 14x14 cm.
      Mas como vc disse, estas medidas podiam flutuar, tanto que há outro caso de azulejos dos quais não tenho nenhuma dúvida que são portugueses (ainda não foram publicados aqui), que não só eu os vi em Lisboa, como já vi pela internet fotos deles em Santarém. E este tem 13,5x13,5 cm.
      Azulejos anteriores ao século XVIII, por razões óbvias, e exceto em alguma coleção particular, não serão encontrados por aqui. E mesmo os do 18, apenas nas igrejas. Então, é de certa forma mais fácil o estudo dos azulejos europeus antigos aqui no Rio.
      abraços,
      Fábio

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    2. Caro Manel,
      Acabei de ver em um site de leilão aqui no Brasil um lote de "bicha e estrela" onde o vendedor indica que os azulejos tem 20x20 cm!!
      abraços

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  6. Raul A. Félix de Sousa3 de outubro de 2012 01:57

    A mim me parece obvio neste caso que este prédio sofreu uma horrenda descaracterização e que os azulejos que aí estão nunca fizeram parte dele e nem contribuem para mitigar o mau gosto desta reforma.

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    1. Raul, eu também acho muito estranho que apenas esta loja, na corrida de lojas deste quarteirão, tenha azulejos. E o conjunto em si não me parece pensado para ter azulejos; não combina!
      De toda forma, o objetivo do blog é registrar o uso dos azulejos antigos na cidade, e como tal, acho uma preciosidade o caso acima (pelos azulejos; não estou falando das questões de arquitetura).

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    2. Concordo contigo, mas neste caso os azulejos não fazem parte da arquitetura do prédio, são apenas a decoração da vitrine da loja.

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    3. Claro, te entendo Raul. Mas me irrita bem mais esse faixa de cimento acima da vitrine, o remendo tosco em madeira no lugar de uma das grades de ferro, e os buracos onde estão faltando azulejos.
      O que eu poderia comentar que está "errado" no uso destes azulejos (embora eu ache que errado é uma coisa meio pesada, de quem segue cegamente cartilha, os mais criativos sempre foram os que pensaram além das cartilhas) é que azulejos de figura avulsa, na Holanda (onde este estilo surgiu) e Portugal jamais são usados em fachadas frontais, para a rua. Eles são usados em espaços internos, e na Holanda, são muito comuns revestindo lareiras, o que dá um efeito incrível. Em Portugal são muito usados para silhares, cozinhas e copas.
      Se você quiser fazer uma campanha para o cara removê-los, restaurar a fachada como originalmente, igual ás lojas gêmeas vizinhas, e me doar todos os azulejos, te dou a maior força e colaboro!!! ;-)))

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  7. Grande Fábio,
    O carro do Street view não entrou na Rua Miguel Couto, que é de pedestres, e não fui conferir no local, mas olhando a partir das esquinas (e também pela tua foto) dá para ver que boa parte das lojas fez a mesma barbaridade: Retirou as colunas de pedra de cantaria que sustentavam a fachada e substituiu por uma barra horizontal de concreto, É difícil imaginar como alguém pode ser tão idiota para gastar dinheiro fazendo uma alteração tão feia e sem sentido. Se fosse uma entrada de caminhões ainda daria para entender. Não dá, portanto, para fazer campanha, porque a única coisa que ele fez de diferente de seus vizinhos, e de milhares de imóveis semelhantes na cidade, foi colocar os azulejos, o que por si só não é ruim. Aliás, ficaria até muito bonito (e adequado, pelo que você descreveu do uso destes azulejos) se eles tivessem mantido os pilares e feito uma vitrine interna utilizando-os como elemento decorativo.
    []s,

    Raul

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    1. Pois é Raul, eu também acho um absurdo alguém gastar dinheiro para piorar, e não melhorar.
      Mas acredita que foi só eu escrever aquilo sobre azulejos de figura avulsa em Portugal, para eu me deparar com uma foto em Viana do Castelo de uma casa coberta na fachada frontal, voltada para rua, por este tipo de azulejo?
      É bom para lembrar que nada do que pensamos como certo ou verdade o é em definitivo.

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